sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Insensíveis
São seres como
Água morna na hora da sede
Pedra que fura os pés
Comida sem sal
Jardim sem flor
Rosa sem cheiro
Casaco que não esquenta
Rio sem rumo
Boca sem beijo
Língua que amarga
Braços sem abraço
Pássaro sem asas
Tarde sem pôr de sol
Manhã sem orvalho
Café ralo
Cor desbotada
Caneta sem tinta
Lamparina seca
Coração seco
Raiz esturricada
Moldura sem tela
Livro sem páginas
Instrumento intangível
Orquestra sem som
Conjunto vazio
Maçã sem semente
Vida sem Graça...
Búzios,10/08/12
Marisa Costa
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Marias
(Retrato da infância)
Era tarde, passavam das três da manhã, um reboliço tomou conta da casa. As telhas vãs permitiam que as palavras, mesmo em tom baixo, transitassem livremente entre os cômodos e desta forma Mariazinha despertou. Pessoas cochilavam, outras cochichavam. A menina, pelas frestas da porta, podia ver o entra e sai de pessoas e sua mãe que, aflita, andava de um lado para o outro. O que menos chamava atenção naquele momento era a presença de uma criança, e curiosa Mariazinha saiu a procurar o que causava todo aquele burburinho. A sofrida Maria, sem palavras, assistia a tudo como quem tem um pesadelo. As horas passavam e se o sol chegasse traria à luz o que estava em oculto. Maria preferia que ele não chegasse, ao menos naquele dia, ou que aquele dia não existisse. Porém, como sol sempre trás tudo à luz, não só os que cochilavam e cochichavam saberiam sobre a casa de Maria; mas em poucas horas, como sangue, a notícia correria entre as ruas, satisfazendo ouvidos ávidos por novidades...
Melhor seria que Mariazinha não tivesse despertado, nem olhado entre as frestas e nem saído do quarto, pois, naquela madrugada, ela viu a vida chegar perto da morte e dar tchau a quem fica... A colcha de retalhos que envolvia o corpo pálido e lânguido de José, era o retrato do coração de sua mãe... José sobreviveu por mais alguns anos, mas seus sonhos morreram ali. Silenciosamente os anos foram passando, Mariazinha foi crescendo e Maria deixou de existir assim como José.
Búzios, 02/07/12
Marisa Costa
(Retrato da infância)
Era tarde, passavam das três da manhã, um reboliço tomou conta da casa. As telhas vãs permitiam que as palavras, mesmo em tom baixo, transitassem livremente entre os cômodos e desta forma Mariazinha despertou. Pessoas cochilavam, outras cochichavam. A menina, pelas frestas da porta, podia ver o entra e sai de pessoas e sua mãe que, aflita, andava de um lado para o outro. O que menos chamava atenção naquele momento era a presença de uma criança, e curiosa Mariazinha saiu a procurar o que causava todo aquele burburinho. A sofrida Maria, sem palavras, assistia a tudo como quem tem um pesadelo. As horas passavam e se o sol chegasse traria à luz o que estava em oculto. Maria preferia que ele não chegasse, ao menos naquele dia, ou que aquele dia não existisse. Porém, como sol sempre trás tudo à luz, não só os que cochilavam e cochichavam saberiam sobre a casa de Maria; mas em poucas horas, como sangue, a notícia correria entre as ruas, satisfazendo ouvidos ávidos por novidades...
Melhor seria que Mariazinha não tivesse despertado, nem olhado entre as frestas e nem saído do quarto, pois, naquela madrugada, ela viu a vida chegar perto da morte e dar tchau a quem fica... A colcha de retalhos que envolvia o corpo pálido e lânguido de José, era o retrato do coração de sua mãe... José sobreviveu por mais alguns anos, mas seus sonhos morreram ali. Silenciosamente os anos foram passando, Mariazinha foi crescendo e Maria deixou de existir assim como José.
Búzios, 02/07/12
Marisa Costa
terça-feira, 19 de junho de 2012
sábado, 2 de junho de 2012
Então, cante!
Tal qual entalhador, que encontrou
Um nó na madeira e precisou empreender
Mais força, assim estou eu...
Hoje eu preciso buscar as cores
Encontrar os pincéis e fortalecer as mãos
Seguir em frente, colorindo o caminho
Extinguindo o cinza, colaborando com a vida
Hoje eu preciso cantarolar sem parar
O dia inteirinho
Espantar essa nhaca da alma...
Quem sabe um samba?
É! Por que não?
A mistura dos sons
Misturados às cores
Não dê força às mãos
E os nós se desfaçam?
Quem sabe o sol aparece
Dê brilho as cores
E anime o sons?
"Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!"
E quem sabe a noite não venha ilustrada
com tudo de mais belo que há?
Então cante!
Búzios, 02/06/12
Marisa Costa
terça-feira, 29 de maio de 2012
Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho...e o que mais?
É, posso dizer que, em meus 49 anos, ainda falta muito pra mim.
Da árvore,
quero colher muitos frutos e repartir com quem não tem
Quero doar
minha leitura àquele que não pode fazê-la
Quero
abraçar os filhos dos meus filhosQuero conhecer outros mundos para entender que além do meu umbigo existe muito chão...
Quero romper com os pensamentos que aprisionam, que encaixotam
Quero não fazer parte de reuniões e discussões vazias
Quero dizer o que sinto sem precisar usar palavras e ser compreendida assim
Quero continuar a fazer minha pintura borrada...
Ainda falta muito pra mim.
Búzios,27/05/12
Marisa Costa
Deixem os Pardais e os Pombos
Interessante,
as pessoas tem o infeliz hábito de comparar
estes
pássaros, a tudo que não é bom; sem,
antes, fazer uma análise.
Se eles
proliferam demasiadamente e devastam plantações, se sujam praças
e carros, se disseminam piolhos, se incomodam,
eles são irracionais...
Mas não os
comparem aos humanos e suas "cagadas",
pois estão
longe de qualquer similaridade.
Os Pardais e
os Pombos, são inofensivos pássaros cagões.
Búzios,
29/05/12
Marisa Costa
sexta-feira, 20 de abril de 2012
E...
Quando a noite vier
e o sino soar
e o trabalho cessar
e o sol descansar
e a poeira abaixar
e o orvalho descer
e a grama molhar
e o fogo apagar
e o frio chegar
e a lua surgir
e a estrela brilhar
e a luz acender
e as bocas calarem
e outras bocas se amarem
e os ruídos dormirem
e o silêncio chegar
e a guerra der trégua
e a mente acalmar...
Em paz vou me deitar
e logo no sono pegar
pois sei, eu bem sei
quem cuida de mim...
Búzios, 20/04/12
Marisa Costa
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